Texto

 
A CENA foi o primeiro texto dramatúrgico que escrevi. Nesse sentido ele é totalmente experimental. Ele procura transpor para uma outra linguagem, um universo de perguntas que estão na minha narrativa:  viagens, heranças que não se completam, a estrangeiridade,  o estar entre duas línguas. Mas principalmente o que eu chamaria de uma ‘poética da suspensão’. Nem tudo deve ser dito. O sentido pode ficar suspenso entre uma frase e outra, daí a necessidade do corte no texto. Daí a importância do silêncio. A cena se constrói em torno dessas pausas, maiores e menores, que vão estabelecendo pontes entre diversos níveis de enunciação: ela na cena, ela vendo uma cena, ela lembrando ou contando uma cena. Ela entre o que lhe pertence e o que é de outro. Nessa inconstância, a possibilidade de que o público se aproxime, se sinta convocado a fazer parte do gesto e da memória dela. A se perguntar pela distância entre o vivido e o lembrado, pelo sentido de se deslocar no tempo e no espaço, pela transitividade dos afetos. A acenar de volta quando chegar a hora de partir.

Paloma Vidal

Escritora, tradutora e professora de Teoria Literária da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Formada em Letras e Filosofia pela UFRJ. Realizou mestrado e doutorado em Letras na PUC-Rio. Sua dissertação de mestrado foi publicada com o título A história em seus restos: literatura e exílio no Cone Sul (Annablume, 2004). Publicou o romance Algum Lugar (7 Letras, 2009) e também os volumes de contos A duas mãos (7 Letras, 2003) e Mais ao sul (Língua Geral, 2008). Participou das antologias 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Record, 2004), Paralelos: 17 contos da nova literatura brasileira (Agir, 2004), Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê, 2004) e A visita (Barracuda, 2005). Também publicou artigos sobre literatura latino-americana em diversas revistas especializadas, brasileira e internacionais, entre elas Alea, Ipótesi, Estudos de literatura contemporânea e hemisférica. Traduziu, entre outros, Aparições, da escritora mexicana Margo Glantz, e Romance negro com argentinos, da escritora argentina Luisa Valenzuela. Desde 2003 edita a revista Grumo, publicação anual de literatura, arte e cultura latino-americana.